08/04/2011
Mais um caso na sociedade do espetáculo é noticiado pelo jornal mais assistido no Brasil, que começa com “Jornal” e termina com “Nacional”. Aqui vão algumas considerações sobre isso. Como todo bom brasileiro, ligamos a TV, após um dia cansativo de trabalho. Ao invés de jantarmos uma comida farta de vitaminas, carboidratos, etc., nós esperamos ouvir o “boa noite” cotidiano dos apresentadores quase deuses, para depois sermos tão bem alimentados com as mazelas que acontecem em nosso país. Pois bem, no dia 07/04/2011, não foi diferente. Aliás, foi diferente porque o fato era novo no Brasil. Então, foi preciso criar estratégias para cutucar a ferida de um jeito que doesse mais. Tem que começar e terminar com sangue e lágrimas. Afinal, para que pensar em alternativas para curar essa ferida?
O casal global, com aquela cara tão bem ensaiada de tristeza, dizia a respeito de um jovem, a princípio ele era um “jovem”, ex-aluno de uma escola pública do Rio de Janeiro que matou 12 “crianças” e feriu outras 27 que estavam em sala de aula. Depois de muitos vídeos mostrados na reportagem, “crianças” correndo para a saída da escola com seus uniformes ensangüentados, pessoas gritando, um cadáver na escadaria, o jovem virou um assassino. Isso mesmo! Antes dos vídeos, ele era jovem na fala dos apresentadores; depois de ter mostrado a que ele tinha vindo, fez jus ganhar o nome de assassino. Não tiremos sua responsabilidade sobre seus atos, mas de repente, ele virou assassino.
Os adolescentes, de repente, viraram crianças. Você já parou pra pensar nessa intencionalidade de nomea-los assim? Chamar as vítimas de jovens ou adolescentes naquela hora não seria tão impactante. Compare: “jovem mata adolescentes...”. Adolescentes morrem todos os dias no Brasil, não gera mais tanto lucro. Porém, “jovem mata crianças” é mais pesado, pois crianças são tidas como sujeitos que necessitam de mais proteção, são indefesas, etc. Você não vê um pai no sinal de trânsito pedindo ajuda pra cuidar do filho adolescente que passa fome, pois isso não é “vendável”. Agora, uma criancinha que passa fome, é bem mais estratégico... tiramos o “es” e o “té” pra vê se fica trágico!
Mas como insistir em chamar de crianças, os adolescentes que foram abordados como adultos pela mídia? As vítimas foram entrevistadas instantes após o pânico em meio àquela tragédia. Pânico que a mãe de Jade, uma das alunas entrevistadas, não conseguiu enxergar na fala tão extensa da filha ao ficar a seu lado durante uma entrevista. Biologicamente falando, todos nós, cidadãos brasileiros, sabemos que quando passamos por algum susto ou imprevisto, a resposta do nosso cérebro gera várias sensações: ficamos pálidos, trêmulos, suados, paralisados ou verborrágicos, coração a mil, em estado de choque... pois foi assim que essa garota demonstrou estar. E de repente aparece um microfone em sua frente perguntando coisas mil. Engraçado! Quando a mãe do Roberto Carlos morreu, eu não lembro de ter visto ninguém com um microfone na cara dele pra perguntar nada... e olha que ele já era bem adulto, né? (Ah, desculpem, esquecemos por um momento que ele é rico, que é o Roberto Carlos!)
O que dizer do caminhão de perguntas caindo em cima de uma adolescente que acabou de passar uma situação tão inexplicável? “Você quer voltar pra escola”? Nossa, mas que excelente pergunta! Quem sabe a garota não ficou com vergonha de dizer para a repórter: “Você voltaria?” ou “O que eu ganho se eu responder o que você quer ouvir? Afinal, senhora repórter, tiro é coisa comum no Rio de Janeiro, né?”.
Adolescentes são de ferro... ferro esse talhado pelas mãos de adultos da mídia que infelizmente propagam mais medo e angústia no povo brasileiro, pois suas perguntas não geram reflexão sobre o problema maior que encobre essa situação. São feitas perguntas que não permitem que os telespectadores usem pelo menos um pouco de sua energia pra pensar melhor naquilo que está sendo noticiado. Mas pra que pensar em mais alguma coisa, se a Globo já falou tudo, se o “assassino” já morreu e também já foi diagnosticado como doente mental? É só enterrar o corpo e escolher o nome da doença que mais agradar. Esse é o tipo de resposta que acalma e cala! Reivindicação e impaciência são apenas para o pessoal do Oriente Médio que quer derrubar ditadores do poder. Isso é que é bonito, não é, Jornal Nacional?
E o triste é que tem por onde a coisa piorar. Os nossos cientistas, sejam eles psicólogos, psiquiatras, especialistas em segurança, já evoluíram a ponto de realizarem um diagnóstico tão preciso à distância e em um tempo recorde. Por isso, devemos questionar os currículos de psicologia que não ensinam essa mágica! Sem mágica, a coisa perde a graça... o povo pode ficar bravo e querer se organizar pra pedir uma solução. E a solução não é colocar guardas municipais nas escolas, não é matar o assassino, não é se conformar por ele poder ser um doente mental... É preciso colocar nossa gente pra pensar, pra estranhar as coisas, porque não existe só um “Wellington” no Brasil capaz de realizar um feito tão violento e bem planejado. É preciso discutir e questionar com nossos amigos, vizinhos, familiares, o que será que está por detrás desse acontecimento. Aguardemos agora, depois da dramatização que principalmente a Globo fez, o filme que, assim como o “Última Parada 174”, vai contar a história desse “assassino” e que irá nos comover...
Enquanto isso, as pessoas continuarão respondendo o “boa noite” dos apresentadores deuses sem de fato pensarem, questionarem se suas noites estão sendo ou serão realmente boas! Como disse Coronel Nascimento: “o policial não puxa esse gatilho sozinho”. Se nos acalmamos, calamos e aceitamos a falta de respostas, não estaríamos puxando esse gatilho também?